Finalmente eu iria colocar um piercing. Na tenra idade de 15 anos, eu poderia enfim declarar minha independência e auto suficiência, além de, de quebra, contrariar as regras estéticas da sociedade tradicional. E era cool pra caramba.
At A Glance Author laetitia Contact laetitia@bme.anon When N/A Artist Fofinho Studio Fofinho Body Art Location São Paulo - Brasil Não que fosse algo pensado ou refletido por muito tempo... Uma noite, quando já estava pegando no sono, veio na cabeça a idéia meio maluca de furar a língua. Ao contar para o meu irmão mais velho, recebi um enorme desestímulo: era só um impulso infantil que em menos de um mês eu já teria esquecido.
Bem, já que é assim, eu não precisaria esperar tanto tempo. Por um instinto de desafio, ou mesmo por pirraça, decidi de vez colocar o piercing. Só faltava quebrar o principal obstáculo de adolescentes obstinados: seus pais. Como estava na casa de meu pai em São Paulo, conversei com minha mãe pelo telefone – "é só um brinquinho mãe..." Ambos os meus pais são médicos, e a maior preocupação era possíveis danos à saúde bucal e infecções. Demorou um pouquinho, mas finalmente consegui convence-los.
Fui à Galeria do Rock, no centro da cidade, onde ficam muitos estúdios de tatuagem e piercing, com meu (incrédulo) irmão, já que meu pai não queria que eu entrasse sozinha em um lugar que ninguém tinha a mínima idéia de como seria. Talvez ele estivesse imaginando um antro esfumaçado de maconha onde homens gordos e tatuados ficassem à espreita aguardando garotinhas para bolinar... Pegamos o metrô. Enquanto o trem seguia seu caminho sob a cidade, finalmente tomei consciência do que iria fazer e o que isso significaria para mim. Todas aquelas explicações bobas que eu dei para os meus pais, o desejo de provar independência e coragem, tudo me pareceu tão sem sentido... Eu era enfim uma adolescente e queria provar tudo: toda a dor e toda a felicidade, todas as mentiras e verdades, a crueldade e a bondade redentora... Sem arrependimentos. Talvez tudo fizesse sentido no fim. Decidi que era isso que o piercing iria representar – uma promessa a mim mesma de viver a vida ao máximo, em todas as suas representações contraditórias.
O metrô parou na estação São Bento. Bem, era a hora. Eu e meu irmão atravessamos o centro da cidade com pressa, e finalmente chegamos à Galeria. Subimos as escadas rolantes e meu irmão perguntou se eu queria mudar de idéia: "não... claro que não", eu disse sorrindo. Na Galeria, os estúdios se enfileiram em um só andar, e como eu não conhecia nenhum, tive de ir de estúdio por estúdio pedindo para ver fotos e conferindo quais eram os preços e a limpeza. No fim, a decisão foi um tanto intuitiva: depois de conhecer todos escolhi o que tinha gostado desde o começo e que me aparentava ser o mais limpo e com mais clientes.
Parada em frente à vitrine do estúdio, meu irmão me lembrou de um detalhe que nos tinha passado desapercebido: "mas você é uma menor!" Suei frio ao pensar que teria de esperar outros três anos até poder colocar meu piercing... Entrei na loja e conversei com a atendente – entreguei a autorização assinada do meu pai e a da minha mãe e perguntei, nervosa, se doía muito, quanto tempo demora o processo de cicatrização, de que material era feito o piercing, e muitas outras coisas enquanto esperava a minha vez. Finalmente fui chamada e subi a estreita escada para conhecer a pessoa que iria furar minha língua.
Ele foi muito gentil e me pediu para enxaguar minha boca com Listerine (anti-séptico bucal) e sentar em uma grande cadeira branca de dentista. Ele era jovem e definitivamente não se encaixava no estereótipo que meu pai havia criado. Meu irmão sentara em uma cadeira de plástico na minha frente e conversamos enquanto o especialista esterilizava a jóia.
Ele então pediu que eu colocasse a língua para fora e marcou com uma caneta o lugar onde iria o piercing. Fechei os olhos e segurei com força os braços da cadeira – era agora. Uma dor estranha, mas tolerável, tomou minha boca por um momento. Depois, quando abri os olhos, tudo já tinha acabado. Depois de limpar um pouco, pedir para eu enxaguar de novo a boca com anti-séptico e me entregar um papel com as instruções de higiene e cuidados com o piercing, o rapaz disse que eu já podia ir. Meu irmão, surpreso com a rapidez, pagou à atendente. Em 10 minutos, senti minha língua inchar e pedi um suco gelado na lanchonete próxima. Pegamos o metrô e voltamos enfim para casa.
Durante três dias, minha língua ficou inchada e tornou-se difícil alimentar-se de coisas sólidas. Eu comia principalmente sopas e vitaminas. Falar também era uma dificuldade. Com o tempo, no entanto, me acostumei com o piercing e minha língua desinchou.
Minha mãe e meu pai estranharam a princípio, mas depois acharam até interessante.
Tenho meu piercing há dois anos e alguns meses e hoje em dia não me imagino mais sem ele. Creio que ele acabou por marcar uma época da minha vida, um momento de passagem e uma promessa que nunca esqueci.